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PM dispara 69 vezes contra dois homens em crise emocional em SP, e especialistas cobram revisão de protocolos

Foto do escritor: Deyvi souza
Deyvi souza
15 de out.
3 min de leitura

Duas ocorrências envolvendo mortes durante ações da Polícia Militar em São Paulo reacenderam o debate sobre o uso da força policial e o preparo dos agentes para lidar com pessoas em crises de saúde mental. Em apenas uma semana, policiais dispararam 69 vezes contra dois homens, que morreram durante as abordagens.

Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, atingido por diversos tiros de policiais militares na Zona Sul de SP. E Antonio Nunes Batista, de 40 anos, foi atingido por disparados de agentes na Zona Norte. — Foto: Montagem/g1/Reprodução/TV Globo
Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, atingido por diversos tiros de policiais militares na Zona Sul de SP. E Antonio Nunes Batista, de 40 anos, foi atingido por disparados de agentes na Zona Norte. — Foto: Montagem/g1/Reprodução/TV Globo

Os casos aconteceram na capital paulista e envolveram Antonio Nunes Batista, de 40 anos, morto na Zona Norte, e Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morto na Zona Sul. Segundo familiares e registros das ocorrências, os dois apresentavam problemas emocionais ou de saúde mental.


As duas ações foram filmadas e estão sendo investigadas separadamente pela Polícia Civil, que apura se os policiais agiram em legítima defesa ou se houve excesso no uso da força.


Dois casos em uma semana


O primeiro caso ocorreu em 3 de outubro, na Vila Dionísia, Zona Norte de São Paulo. Antonio Nunes Batista, de 40 anos, foi morto após policiais militares efetuarem 24 disparos durante a abordagem.


O segundo episódio aconteceu em 10 de outubro, no bairro de Moema, Zona Sul da capital. Gustavo Munis de Santana, de 20 anos, morreu depois que policiais dispararam 45 vezes durante a ocorrência.

Câmera de segurança mostra que Gustavo Santana apontou celular e depois foi baleado por PMs em São Paulo. — Foto: Reprodução
Câmera de segurança mostra que Gustavo Santana apontou celular e depois foi baleado por PMs em São Paulo. — Foto: Reprodução

As circunstâncias específicas de cada abordagem estão sendo apuradas pelas autoridades. Os registros em vídeo e os demais elementos reunidos deverão auxiliar na investigação sobre a atuação dos policiais.


Especialistas questionam quantidade de disparos


Especialistas em segurança pública ouvidos pelo g1 afirmam que a quantidade de tiros chama a atenção e pode indicar a necessidade de analisar se os procedimentos técnicos foram respeitados.


O coronel da reserva da Polícia Militar e ex-secretário nacional de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho, avaliou que, diante de uma ameaça iminente, a reação policial precisa ser rápida, mas deve seguir protocolos técnicos.


Segundo ele, os casos apontam para a necessidade de revisão dos procedimentos adotados pela corporação.


Já Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que o número elevado de disparos pode ser um dos elementos considerados na análise sobre o cumprimento dos protocolos. Ele defendeu uma investigação aprofundada das duas ocorrências.


O que prevê o Método Giraldi?


O debate também envolve o chamado Método Giraldi, utilizado pela Polícia Militar paulista no treinamento de tiro defensivo com foco na preservação da vida.


Segundo uma apostila de treinamento de 2009 consultada pela reportagem, o disparo de arma de fogo deve ser considerado a última alternativa, respeitando critérios como necessidade, oportunidade e proporcionalidade.


O material destaca que, em muitas situações, procedimentos de abordagem e contenção, e não disparos, são capazes de preservar vidas e solucionar ocorrências.


A orientação descrita na apostila prevê que, quando houver necessidade de utilizar arma de fogo, os disparos sejam realizados em sequências de dois tiros rápidos.


Um oficial da PM ouvido sob condição de anonimato também afirmou que o treinamento inclui exercícios direcionados à identificação de ameaças e ao uso da arma com o objetivo de imobilizar o oponente, priorizando a preservação da vida.


Saúde mental e atendimento policial


Além da quantidade de disparos, os casos levantaram questionamentos sobre como a polícia deve atuar quando encontra pessoas em crise emocional ou com possíveis transtornos psiquiátricos.


Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, defendeu uma reflexão sobre a participação de profissionais de saúde no atendimento dessas ocorrências.


Para ela, situações relacionadas à saúde mental não devem ser tratadas exclusivamente como questões policiais. A especialista citou experiências internacionais que envolvem equipes especializadas em saúde mental no atendimento a pessoas em crise.


A proposta é ampliar a preparação dos agentes e avaliar alternativas de abordagem que contribuam para reduzir riscos tanto para as pessoas atendidas quanto para os próprios policiais.


Investigações continuam


A Polícia Civil investiga os dois casos separadamente para esclarecer as circunstâncias das mortes e determinar se a atuação dos policiais esteve de acordo com a legislação e os protocolos de uso da força.


As apurações deverão considerar imagens, depoimentos e outros elementos disponíveis para reconstruir a dinâmica das ocorrências.


Os episódios voltaram a colocar em discussão a necessidade de treinamento contínuo, de protocolos adequados para situações de crise e de mecanismos rigorosos de apuração quando ações policiais terminam em morte.


Fonte: g1 São Paulo e TV Globo.

 
 
 

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